Rosa vai se irritar com a minha metáfora e implorar que hoje tentemos focar bastante porque não temos avançado nada e a mina vida inteira é uma neblina... Aurora está em uma casa de repouso depois de ser encontrada vagando, desmemoriada, no acostamento de uma estrada, segurando a coleira vazia de um cachorro e chamando por ‘Camila’. No abrigo de idosos, a antiga professora de língua portuguesa de setenta e tantos anos reconta as muitas versões de sua vida para a assistente social Rosa, que está empenhada em ajudá-la a recuperar suas memórias e retomar a vida fora do asilo.
“O médico disse que eu tenho ilhas preservadas de memória,
gosto da imagem, mas como saber se são ilhas ou, ao contrário, miragens de
oásis no meio da minha indistinta porção de terra."
O estilo de Mariana Salomão Carrara é febril, sem pausas longas, misturando delírio, lucidez, afeto e o peso da finitude humana. A narrativa em 1° pessoa passa a não ser confiável pois, cada capítulo, a versão do passado de Aurora parece mudar ou se reconfigurar, deixando a dúvida sobre o que é real e o que é invenção da sua mente... A construção da protagonista Aurora é um dos aspectos mais fascinantes e dolorosos do livro. O que mais impressiona na personagem é o conceito de "narradora não confiável" levado ao extremo, mas não por malícia, e sim pelas lacunas provocadas pela sua própria mente e pelo trauma.
a leitura dessa história é daquelas que não dá
para abandonar pelo caminho. Como a narrativa de Mariana Salomão Carrara
funciona em um fluxo de consciência muito intenso, o desejo de passar da página
100 é guiado pela necessidade de descobrir o que é real e o que é delírio na
mente da protagonista Aurora.

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